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Salazar – O génio do século

Salazar – O génio do século

(Parte Primeira)

Nota explicatória

Dei-me ao trabalho de escrever estas notas por promessa a um amigo e para equilíbrio a um outro artigo que saiu neste blog. Nem tudo foi bom, nem tudo foi mau, acho eu. Não vivi nesta época, por isso fundamento-me em quem a viveu. Nos máximos das minhas possibilidades tentarei deixar os registos e referências que deram origem às notas. Ficam assim estas, para proveito educativo(espero) de quem as leia.

Um pouco da história de Portugal

Antes do 28 de Maio de 1926, estavam os republicanos no poder. Duas queixas foram a eles apontadas. Primeira, era a inconstância dos ministros e dos ministérios, que não chegavam a acabar os projectos. A segunda, era a longa permanência do partido republicano no poder. Contraditórias, estas afirmações, visto vivermos nessa altura uma democracia, o facto deste partido estar no poder seria resultado de eleições.

O movimento do 28 de Maio era fraco de ideias, pois se resumia ao desalojamento dos democráticos, não tendo nada previsto para o futuro. Com a instabilidade gerada e a sede de poder de alguns aventureiros levou à “rebaldaria” durante os seguintes 6 anos de governação, e dando início à ditadura portuguesa. Eis a sequência de governos:

A 31 de Maio de 1928, o general Mendes Cabeçadas começava o seu mandato, organizando o primeiro governo da ditadura a 3 de Junho. Como era essencialmente conservador, foi declarado inimigo da república, sendo “varrido” ao fim de 14 dias pelo general Gomes da Costa.

Este organizou novo ministério a 17 de Junho. O general Cabeçadas não retaliou, apesar das ofertas de apoio que recebeu, suficientes para não deixar seguir o golpe, e deixou-se cair. Mas o governo de Gomes da Costa também não aqueceu o lugar, durando apenas 22 dias.

O general Sinel de Cordes faz, então, novo golpe de Estado, derrubando o governo de Gomes da Costa, sucedendo-lhe um do general Óscar Carmona, criado a 9 de Julho, durando este cerca de um ano. Saíram de moda os golpes de Estado e, com isto, acabaram os governos a dias e começaram os governos a meses.

O mesmo Óscar Carmona apresentou novo ministério a 26 de Agosto de 1927, este com a duração de 7 meses e 18 dias.

Com a “promoção” de Óscar Carmona a presidente da República, este deixa o legado ao coronel Vicente de Freitas, encarregado então de formar novo governo, acto que fez a 18 de Abril de 1928, com a duração de 6 meses e 13 dias.

Ficou, então, o mesmo  de formar novo governo, que apresentou a 10 de Novembro de 1928 e  durou até 8 de Julho de 1929 (8 meses menos 2 dias).

Seria, então, a vez de Ivenz Ferras, que foi chamado ao poder e organizou governo a 8 de Julho de 1929, durando este cerca de 6 meses.

Seguiu-se, a 12 de Janeiro de 1930, o governo organizado pelo general Domingos de Oliveira, com a duração de cerca de 17 meses, pondo termo aos governos a meses e dando início aos governos a anos.

Constituiu a 5 de Julho de 1932 o dr. Oliveira Salazar o seu governo. Acabaram os ministérios a anos e entramos no ministério vitalício.

Durante esta sucessão vertiginosa de governos, o Estado foi pilhado e desfalcado com despesas desnecessárias, mal medidas e principalmente por interesses privados que nada tinham a haver com governação. Qual deles o mais inútil…

Caracterização do nosso ditador

Salazar era tido, tanto cá dentro (por quem lidava com ele), como lá fora (líderes de outros países) como um homem de pouca inteligência. Partilham esta visão, textos e palavras de António de Lacerda, Henrique Veiga de Macedo, Cunha Leal e Sebastião Ribeiro, entre outros, que fui lendo por aí. Posso dar um exemplo de um jornalista alemão que veio a mando de Hitler para entrevistar o nosso ditador, notícia que nunca saiu por cá, riscado pelo lápis azul da censura. Nesta, segundo o jornalista, o nosso ditador era um homem de pouca inteligência, e por consciência desse facto, rodeava-se de colaboradores de nível intelectual mais baixo que o dele. Pouco mais se podia tirar, apesar do que se esperava. Era um homem com ideais que oscilavam, tanto para a esquerda, como para a direita, e como o país era essencialmente conservador, para aí pendeu. Como cristão, instalou-se no partido católico, tentando alcançar, talvez, alguma inspiração divina, colmatando a falta de confiança que tinha na sua pessoa. Quando o clero decidiu afastar-se, não hesitou em lembrar-lhe que poderiam vir a ser tidos como inimigos. Praticava actos de culto com bastante frequência, com que objectivo, ainda estou para descobrir(talvez haja alguma pista noutro artigo que, com todo o meu respeito o li). Não desprendido das ideias monárquicas, só as confessava em voz baixa, mantendo junto de si os dessa facção. Sem ideias originais, como se pode ver na entrevista com o alemão, seguia por imitação o mesmo que já se fazia lá fora. Não quero com isto dizer que ele não procurou ideias novas….nas não as encontrou. Ainda tentou recuar aos tempos do absolutismo mas….o tempo não andou para trás nem o absolutismo ressuscitou. Podia-se criar um regime parecido, mas com características modernas que, sem elas, não merecem o respeito pela imitação já falhada. Ficou, então, visto como uma pessoa retrógrada e fraco de ideias próprias. Com o fim da segunda grande guerra, e consequente fim das ditaduras, Salazar tentou disfarçar a sua, fazendo-se democrata orgânico. Salazar repugnou o comunismo, opondo-se a que a Rússia entrasse na Sociedade das Nações. Isto até um dia que, já a Rússia com lugar de destaque nas Nações Unidas devido à segunda guerra, vetou a entrada de Portugal neste novo organismo, sendo Salazar obrigado a fazer um discurso de valorização ao comunismo, como desculpa. Eis mais duas características, uma a falta de visão de que era dotado, em que, entre muitas outras coisas, sempre acreditou que o nazismo sairia vitorioso, a outra, a habilidade com que mudava de posição para se orientar no seu poleiro. Uma terceira, ainda, se pode tirar desde espectáculo: é que é de uma inteligência muito grosseira para ser acreditada por Estaline que, se teve acesso ao discurso, muito se deve ter rido com a artimanha óbvia de Salazar. A bem da verdade, vale a pena dizer que, com todas as virtudes e defeitos, foi a nação que ganhou a guerra, quebrando as forças de Hitler significativamente, deixando a machadada fatal para os ingleses e americanos, tendo uma palavra de liberdade sobre todas as outras nações do mundo.

De reduzida cultura, limitou também a cultura do país, como Marcelo Caetano chegou a falar das desvantagens das políticas aplicadas. Era um homem refugiado no seu orgulho e na vassalagem que os amigos do regime lhe prestavam, na forma de propaganda por todo o lado, típico dos regimes totalitários, e com a insegurança que tinha nas próprias ideias, montou a sua ditadura, com medo de perder o poleiro num processo eleitoral. Tentarei demonstrar estas características ao longo das minhas palavras.

Ascenção de Salazar

A ascensão de Salazar começou com o derrubar do governo de Gomes da Costa por Sinel de Cordes. Este tomou a pasta das finanças e  conservou-a por dois mandatos seguidos. Esta gerência foi uma calamidade para as finanças do país, ao ponto de, em necessidade de crédito, só com condições vexatórias para uma nação independente.

Saindo Sinel de Cordes e constituído o ministério de Vicente de Freitas, e perante o estado calamitoso das finanças, não havia gente acreditada que quisesse concorrer ao cargo das finanças. Foi convidado, então, Oliveira Salazar para o efeito, com a garantia deste, d’o milagre do equilíbrio orçamental. Salazar propôs-se e cumpriu, cozinhado com Quirino de Jesus, apresentando o equilíbrio financeiro embrulhado num orçamento desequilibrado, e é nisso que constitui o seu milagre. Para o efeito, o cozinhado apresentava uma classificação errada das receitas e das despesas (inAs Minhas Memórias“, Cunha Leal), coisa que vemos fazer também nos dias de hoje, em que a matemática deixa de ser exacta. Tiveram estes, vantagem em, nessa altura, o país estar em mãos de militares, que de orçamento, gestão e finanças, pouco percebiam, e desde que pagos os ordenados, e a horas, estava tudo bem. O mesmo não sucedeu com alguns civis mais entendidos, que deram logo pela manobra.

O documento foi analisado por peritos financeiros da Sociedade das Nações e foi classificado como francamente deficitário, colocando Portugal na lista dos Países financeiramente desequilibrados.

Entretanto, Domingos de Oliveira, nomeado ministro interino das colónias em 1930, lança o Acto Colonial. Cabe dizer que, este acto desastroso, tanto para as colónias, como para o país (como veremos mais tarde), não foi da autoria de Salazar, mas sim idealizado por Quirino de Jesus.

Durante a interinidade de Salazar, deu-se a chamada revolta de Angola de 1930, cujas figuras principais foram o alto-comissário Filomeno da Câmara e o chefe de estado-maior Genipro de Almeida e como figura secundária o tenente Morais Sarmento. Para evitar o agravamento da situação, Salazar abandona a pasta das colónias, dando lugar a outro mais compreensivo, tirando a responsabilidade de cima de si, “rumando” com o assunto dessa maneira.

Com estes créditos, Salazar “trepa”, então, à presidência do ministério, onde pôs e dispôs do país à sua vontade.

Uma ditadura

Característico das ditaduras é a concentração dos poderes do Estado nas mãos de uma só pessoa. Uma polícia privada para uso e abuso próprio, espalhando o terror pela população e mantendo-a, assim, aparentemente ordeira, embora esta, no fundo, indignada e revoltada contra os abusos cometidos à individualidade e desprovida dos legítimos direitos. Reclamar, até se podia, mas com a certeza de que não teria consequências. Assim, um cidadão não pode viver satisfeito. Sem direitos e sem ter como os reclamar, resigna-se à força. Os cidadãos cuidados desta forma vêem-se restritos, também, ao direito de protesto, pois, logo vem a polícia e prende-os. Se não a todos, pelo menos aos principais, vendo-se estes presos por meses para serem julgados e condenados nos tribunais de excepção por serem burgueses ou comunistas, para o prestígio das polícias e tranquilidade das ditaduras. Sentenças normalmente fundadas em confissões obtidas por processos pouco recomendáveis. Os meios de comunicação seriam uma solução para expor os problemas do país, mas para isso existe também o mecanismo da censura, de certo, a arma mais poderosa da ditadura. De nada vale o poder e a força se não houver censura. O “dono” desta arma pode expor os “factos” como bem entende, sem forma de resposta ou contradição para por as coisas nos devidos lugares. Tudo é possível.

Preparação do totalitarismo

Como preparação para o poder totalitário, existiam dois principais regimes desta natureza, o fascismo e o comunismo. Como o comunismo estava para além da cortina de ferro, pouco se sabia dele. Salazar não teve ideias próprias e copiou o regime fascista de Mussolini. Tivemos, então, a constituição de 1933, acabando com os poderes do estado e deixando como real e único, o do governo que estava concentrado em Salazar. O poder legislativo vinha suspenso desde o 28 de Maio de 1926. Ora, serve a constituição para consignar os direitos, liberdades e garantias individuais, sendo que esta estava subordinada aos regulamentos respectivos, destruindo, desta maneira, a matéria constitucional. O poder judicial acabou da mesma maneira, retirando as garantias dos juízes, estes passaram a julgar “com o credo na boca”, não fossem, estes, desagradar ao governo, com as respectivas represálias. “Os juízes são homens como os outros, o que os torna diferentes são as garantias conferidas e visivelmente respeitadas. Desaparecidas estas, desapareceram os juízes.”. Foram retiradas as promoções por distinção, e com ela foi retirada a vontade de estudar e de exercer melhor a profissão. Para os tribunais superiores, eram escolhidos os medíocres e os maus (mas de “confiança”), devido aos critérios impostos pelo mestre Antunes, quando se propôs a acabar com a “maldita raça dos juízes”. Foi, ao mesmo tempo, retirada aos juízes a apreciação da constitucionalidade das leis, deixando que estas fossem escritas de forma inconstitucional, dúbia e, até por vezes, não interpretável.

Tiradas as garantias individuais, fomos reduzidos a um povo de selvagens, até mesmo ao nível de escravos. Quando no estrangeiro nos consideravam um povo atrasado, não seria sem fundamento, pois bastava olhar para a nossa lei fundamental para justificar tal suspeita, e para ter a certeza, era só ver como esta era aplicada num regime de ditadura policial (embora esta fosse repudiada pela generalidade dos portugueses).

Em respeito ao cargo de presidente da República, apesar de ser fabricado por Salazar, este não deixou de se prevenir contra eventuais tomadas de posição, de tão desconfiado que era de quem o rodeava, com o paragrafo 1º do art.80º da constituição, dando poder de decisão, sobre a impossibilidade de permanência do presidente da República, ao Conselho de Estado.

Ficamos, assim, com um ditador com plenos poderes e nós sem nenhuns. Sem garantias ou garantias ilusórias constitucionais e sem justiça, nem ao presidente da República se podia recorrer.

Duas instituições podiam quebrar o regime imposto por Salazar. Uma seria o ministério da justiça, pela forma moral, a outra material, pelo exército (como mais tarde se veio a verificar).

O primeiro golpe no ministério da justiça foi dado com a constituição de 1933. Não bastando, faz uso de mais dois processos para ter os juízes nas mãos. Um foi a promoção aos tribunais superiores por escolha, outra mais tarde, foi a escolha dos piores e mais controláveis para o Supremo Tribunal de Justiça, eliminando qualquer estímulo para o aperfeiçoamento da profissão. As garantias a uma boa administração da justiça foram assim esquecidas. Os juízes eram transferidos das comarcas com os mais variados pretextos. Foram restaurados os corregedores e desembargadores, eliminando praticamente os juízes, e os poucos que restaram, ficaram reduzidos a simples funcionários de justiça.

Com o exército, a coisa “piou” de outra maneira, sendo necessárias outras cautelas, não fosse uma imprudência deflagrar na queda da ditadura com a consequente perda do “génio do século, salvador da pátria”. Após se levantarem uma primeira vez contra a ditadura, os melhores oficiais foram recambiados para as colónias, ficando por lá o tempo que os conservadores acharam por bem. Outros emigraram para outros países da Europa. Salazar decide, então, criar um exército digno de si, e para tal facilita as reformas dos oficiais existentes, e estes, perante as vantagens oferecidas, aproveitaram-nas, se não todos, pelo menos uma grande parte. Os mais renitentes, ficaram sob rigorosa vigilância do Governo, sem comando e sujeitos a desconfiança e perseguições permanentes.

Resolvida a questão da justiça e resfriados os militares, dá-se, então, a entrada no governo do terror. Começou por criar a polícia política, coisa própria dos países totalitários e, à imitação da Alemanha, criada a polícia de informações. Além dos poderes extraordinários redigidos no diploma que lhes deu origem, acresceram os abusos praticados pelo agentes, com tolerância tácita e, mesmo até, expressa de Salazar. Não quer isto dizer  que, por vezes, não agissem dentro dos parâmetros legais, com grande espanto de quem presenciava tal excepção, necessária para confirmar a regra, pois a vulgaridade era mesmo o abuso. Tinha livre arbítrio para prender, muitas vezes por tempo indeterminado e, por vezes, sem sequer um interrogatório, deixando os prisioneiros na absoluta ignorância dos motivos que os levaram à prisão. Chegava a acontecer a restituição da liberdade, por estas prisões derivarem de equívocos, só desfeitos depois de penosos meses de injusta clausura. Foram destacados agentes como pupilos para Berlim, para aprender os métodos da Gestapo, vindo ao mesmo tempo mestres da Gestapo dar formação aos da nossa polícia de informação.

Os abusos chegaram ao ponto de Salazar ter de apaziguar as águas, criando a PIDE, mas apesar da aparente discordância de métodos, conservou o mesmo pessoal, que continuou a cometer os mesmos abusos. Sentia-se a PIDE no direito de intervir em todos os negócios e situações, sendo a principal motivação a manutenção do Estado Novo. As outras polícias foram, também, iniciadas na protecção do Governo. Foram, então, militarizadas as polícias civis, sob comando de oficiais do exército. Os abusos, por parte destas, chegaram a provocar a morte a muitos, e nos casos mais públicos, houve até promessas de inquéritos por parte do Governo, sem nunca se conhecerem resultados. Era assim a vida dessa altura, sem saber quando seriam presos e sujeitos às atrocidades provocadas pelas polícias, tão desprovidos de direitos e garantias constitucionais que a população estava.

Como complemento às polícias, foram criados dois campos de concentração, um em Peniche e outro no Tarrafal (acho este documento de boa leitura), onde se internavam, por tempo indeterminado e por decisão do governo, os opositores à ditadura. Com todos estes argumentos não podemos dizer que a ditadura estava mal policiada, mas pessimamente policiado andava o país.

“De toda a parte, surgem constantemente, queixas motivadas pelas insuficiências de policiamento urbano e rural, às quais se atribuem muitos crimes, em especial de furto e roubo. E temos de concordar, embora nem o melhor policiamento baste para impedir, em absoluto, o crime, que a todas essas queixas assiste alguma razão.”

O Século(2 Out. 1967)

Este artigo, muito moderado, com vista a escapar à censura, começa com o elogio às forças policiais pelo controlo e repressão do crime, mas mais à frente fala-se de assaltos a estabelecimentos, carros, pessoas, burlas, falsificações, ofensas corporais, assassinatos, fogo posto…quer por indivíduos, quer por estruturas organizadas. Como este artigo, outros houve do mesmo género, quer no mesmo jornal, quer noutros.

Ora, por aqui se vê o trabalho da polícia da época, que ao serviço do governo não tinha tempo para defender as populações, mesmo depois de aumentada e reestruturada não chegava para isso. O Governo antes do país. Não é de admirar o estado de medo em que Portugal se apresentava. Mas não bastava o medo do que a polícia pudesse apontar a qualquer um, o crime fácil e comum, uma justiça nula, ainda acrescia a tudo isto os bandos criminosos de apoio à ditadura, como os centuriões, que ameaçavam por carta, como esta:

“Vimos com a morte. Gladius.vê lá Havemos de chorar a morte se os vivos não a merecem. Os centuriões e a nação. Somos cem. Poderíamos ser milhares a afirmar a nação e a defendê-la dos abutres e dos traidores: dos abutres de fora; dos traidores de dentro. Para afirmar a nação e defendê-la dos abutres seremos dezenas de milhares. Para defender a nação dos traidores somos cem. Centuriões regressados de Angola, Moçambique e Guiné – Somos cem. Condenamos a traição que o governo e os seus órgãos não consegue reprimir por meios legais. Somos cem que vimos tantas vezes a morte de perto que ela se tornou nossa familiar. A morte será a nossa arma contra a traição. Vamos mostrar a morte aos traidores, ver-lhes a cara tornar-se nojenta de terror e eliminá-los de seguida. Somos cem espalhados por dezassete cidades do continente. Onde estiver a traição aparecerá a palavra “cem” sobre o cadáver do traidor. Primeiro: um aviso pelo correio. Depois: um aviso telefónico. Se a traição continuar: um encontro com um dos cem. O último encontro com a vida.

Os Centuriões”

Ora, os centuriões ou eram da PIDE, ou esta agia em conivência com eles, pois teria pelo menos de lhes facultar os dados para acharem os “traidores”, deixando-os agir à vontade.

Como outro complemento a toda esta história, foi ainda criado um tribunal especial para casos de “traição”, presidido pelo coronel Mousinho. Deste tribunal, salvo raras excepções para confirmar a regra, não entravam pessoas que não saíssem condenadas. O tribunal de Mousinho, como era conhecido, por este ser, ou melhor, ou o mais obediente dos juízes, foi desmembrado após a guerra de 1939 com a vitória dos aliados, com vista a ocultar os vestígios de totalitarismo e entrar num novo regime fingidamente liberal, ao qual chamou de democracia orgânica. Assim se criaram os plenários, com vista à substituição do tribunal de Mousinho. Eram agora, juízes em substituição de militares. Estes tinham as mesmas funções dos anteriores, e eram presididos por um desembargador escolhido pelo Governo, com a compensação de subida mais rápida ao Supremo Tribunal de Justiça, em caso de comportamento exemplar, nos parâmetros do ditador. Estes tribunais eram uma extensão da PIDE. Esta contava, ainda, com instalações de luxo, bem como prisões privativas de gestão própria, logo, fora dos trâmites normais. A PIDE tinha tudo do que podia deitar a mão, desde roupas, a mobília, apanhadas nas buscas que faziam, que eram perdidas em favor do Estado.

Com semelhança à S.A. (Sturmabteilung ou Secção de Assalto) da Alemanha de Hitler, Salazar criou a Legião Portuguesa, e com esta a Mocidade Portuguesa, em cópia da Juventude Alemã. Com a Mocidade Portuguesa, o ditador pretendia criar mais um núcleo para sua defesa. Ter uma instituição infantil de cariz político é já de si repugnante, mas não bastando, esta era, também, militarizada e tinha como objectivo doutrinar com ideias novas os futuros dirigentes do nação. A direcção da Mocidade Portuguesa esteve, durante bastante tempo, a cargo de Marcelo Caetano.

A censura tapava os buracos que se iam fazendo, enquanto que a propaganda ia proclamando que esses buracos mal tapados eram a melhor coisa que o país podia ter.

(continuação)

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Categorias:Geral
  1. Cav do Asfalto
    Maio 20, 2010 às 10:42

    “Salazar era tido, tanto cá dentro (por quem lidava com ele), como lá fora (líderes de outros países) como um homem de pouca inteligência. Partilham esta visão, textos e palavras de António de Lacerda, Henrique Veiga de Macedo, Cunha Leal e Sebastião Ribeiro, entre outros, que fui lendo por aí.” Desculpe a minha ignorância, mas quem são estes sábios senhores? Eu, quando ando “por aí”, também encontro muito lixo, às vezez até tropeço nele. É que opiniões, são como as cerejas…
    “Com o exército, a coisa “piou” de outra maneira, sendo necessárias outras cautelas(…)”: Com efeito, a história de Portugal que nos é impingida nos ensinamentos oficiais e politicamente correctos, o 25 de Abril foi desencadeado por um conjunto de valorosos e idealistas militares, verdadeiros patriotas (isto dá vontade de rir a quem procura a VERDADE).
    “Com todos estes argumentos não podemos dizer que a ditadura estava mal policiada, mas pessimamente policiado andava o país.” Agora, volvidos 36 anos, podemo-nos vangloriar de termos assassinos dos quatros cantos do Mundo a matarem impunemente, não só o cidadão “livre”, como elementos das forças de segurança. Já viu algum membro da nosso “governo” assaltado ou molestado? Pois não, tal como os outros, também estes vivem num Portugal à parte.

    Portugal, nos tempos do “Génio”, como lhe chama, era um país com uma qualidade e nível de vida inferior ao da maioria dos seus congéneres europeus… E AGORA, É O QUÊ?

    • vishuda
      Maio 20, 2010 às 17:54

      Olá Cav do Asfalto,
      se considerarmos lixo, tudo aquilo que você acredita, estaríamos muito mal de informação. Também não o vejo creditado para a verificação ou descrédito das minhas afirmações, pois, tal como eu, baseia-se noutros para criar a sua verdade com a informação que lhe faz mais sentido.
      De todas as afirmações que fiz, encontrei fundamentos para as fazer, muitas não disse por falta de verificação por outros meios. Quem quer duvidar, é fácil…é só considerar isto como mais lixo da internet. Ou tem outra hipótese, que será ler o mesmo que eu li e averiguar se é efectivamente VERDADE ou não….afinal de contas é assim que se adquire conhecimento. E para desacreditar o que escrevi, terá unicamente que desacreditar onde me baseei(com a leitura e prova do contrário ao escrito nessas fontes, que estão na secção de bibliografia). Aconselho-o também a leitura da segunda parte do artigo, em que comparo com o agora e deixo um conselho útil para os mais desprevenidos. E gostaria que, quando comentasse nos meus posts, que tivesse algum fundamento para o que diz.

      Muito obrigado pela leitura

  2. aziomanoris
    Maio 20, 2010 às 19:05

    Obviamente amigo não concordo com muito do que dizes e quando dizes que Salazar tinha pouca inteligência e se rodeava de politicos ainda menos inteligentes, vai lá ver as pessoas que foram seus ministros e para falar só de dois o José Hermano Saraiva e o Joaquim de Jesus Santos (advogado brilhante e professor de direito). Todas as pessoas que com ele privaram e mesmo algumas estrangeiras diziam precisamente o contrário e a sua vida académica enquanto docente e a obra que deixou escrita e as criticas positivas e negatias que fez dos regimes totalitários que referes, demonstram precisamente que não se limitou a copiar, criticou e fez um à sua maneira, com muitos inimigos internos e externos.

    Mas este movimento é mesmo para gerar polémica e debate, continua que estou a gostar de ler a tua exposição. Grande abraço

    • vishuda
      Maio 20, 2010 às 20:23

      Caro amigo, as características de Salazar são subjectivas, e estando ao critério do subjectivo estão à interpretação de cada um. Por esse mesmo motivo estão num capitulo em separado, para não interferir, mas unicamente para servir de apoio ao restante texto. Nem todas as pessoas tinham a mesma opinião e como disse ao inicio, estou a expor um lado. Do que estudei, estou apenas a deixar a minha visão das coisas que, depois do que li, não me parece descabida nem fanática. Podes citar mais exemplos de pessoas de forte presença intelectual, pois elas existiam, está claro. O que não me parece é que fossem vulgares essas pessoas aparecerem após o 28 de Maio(muito antes do regime de Salazar).

      Forte abraço e com saudades das nossas conversas

  1. Maio 20, 2010 às 3:52

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