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A destruição do Líbano

19-10-2010
Por Flávio Gonçalves, em O Diabo.

http://www.facebook.com/notes/flavio-goncalves/a-destruicao-do-libano/455256389595

Entre 12 de Julho e 14 de Agosto de 2006 o mundo surpreendeu-se com o despoletar de um novo conflito entre Israel e o Líbano, o mais curioso é que o exército libanês nem tomou parte no conflito, há quem lhe chame inclusive a Guerra Israel-Hezbollah. Se é certo que o Hezbollah desempenhou um papel determinante no conflito, já não é tão certo que tenha travado a guerra sozinho: o Movimento Amal, o Partido Comunista Libanês e a Frente Popular para a Libertação da Palestina também desempenharam o seu papel no conflito.

O conflito culminou com uma “derrota” histórica para Israel catapultando o Hezbollah para uma glória que o mundo islâmico (recorde-se que o Hezbollah é xiita ao contrário da esmagadora maioria do Islão médio-oriental, que é sunita) dificilmente lhe atribuiria de outro modo. Mas terá sido mesmo uma derrota para Israel? Que antecedentes existiam na altura que justificassem uma invasão? Problemas na fronteira? Bom, esses ocorrem quase diariamente ainda hoje, embora na altura a imprensa mundial os tenha considerado uma boa desculpa. Não, para compreender este conflito temos que recuar um pouco mais, até 2005.

Revolução dos Cedros

A 19 de Julho de 2005 formava governo o primeiro-ministro Fouad Siniora, no rescaldo da Revolução dos Cedros, que culminou a 26 de Abril com a saída do último soldado sírio do Líbano. O que tinha de tão especial este governo? Primeiro, há que ter em conta que no Líbano ainda ocorre algo que no Ocidente há muito deixou de existir: praticamente todos os partidos políticos possuem um braço armado, uma milícia paramilitar que por vezes se assemelha mesmo a um exército, no caso libanês os partidos com os maiores “exércitos” pessoais, digamos assim, são, respectivamente, o Hezbollah xiita e as cristãs Forças Libanesas (muitas pessoas confundem-nas com o Kataeb, mais conhecido pelo nome de Falange Libanesa, isto deve-se ao facto do seu fundador, Bachir Gemayel, ter sido dirigente da Falange – as Forças Libanesas foram fundadas na altura como milícia, tornando-se um partido à margem da Falange após a Guerra Civil do Líbano), a terceira maior força armada ao país, após a saída das tropas sírias, é o Exército convencional.

Há que recordar que as Forças Libanesas eram, até 18 de Julho, um partido activo, embora proscrito era a terceira potência militar libanesa, atrás do Exército e do Hezbollah, o seu presidente, Samir Geagea, encontrava-se inclusivamente preso… amnistiado no dia 18, no dia 19 era convidado a integrar o governo de Siniora, juntamente com o Hezbollah!

Que tem isto de tão relevante? Duas coisas: primeiro, mais que um governo de União Nacional seria um governo de Reconciliação Nacional, em que os dois principais opositores da Guerra Civil do Líbano, Forças Libanesas e Hezbollah (combatendo na altura um ao lado de Israel e o outro ao lado da Síria), eram convidados a integrar a coligação do governo; segundo: no governo Siniora uniam-se, pela primeira vez, as três principais forças militares libanesas, os milicianos xiitas e cristãos estavam no governo, logo camaradas de armas do laico Exército nacional!

Entra Israel

Infelizmente, o conflito despoletado quase um ano mais tarde, quando o governo se consolidava (o governo continha também ministros cristãos ortodoxos, católicos gregos, protestantes, arménios, sunitas e drusos). Quando o Líbano, passadas décadas, se reconstruía politicamente e militarmente, velhos inimigos tornavam-se aliados dando prioridade à sua condição de libaneses acima da de pró-israelitas e pró-sírios, numa altura tão delicada e com muitas ferida ainda por sarar o pior que podia ter acontecido foi exactamente o que aconteceu: Israel invade, pela segunda vez, o Líbano.

A 14 de Agosto de 2006 é quase unânime a opinião de que Israel saíra derrotada do conflito, será? Militarmente, talvez, politicamente e geopoliticamente Israel obteve a sua maior vitória de sempre contra o Líbano!

Foram necessários 15 anos para constituir o primeiro governo de reconciliação nacional, governo esse que incluía, pela primeira vez, as três principais forças armadas do país. Seria do interesse israelita um Líbano forte? Um governo forte que unisse todas as correntes políticas e religiosas da Pátria? A maior coligação militar de sempre? Claro que não! E isto, meus caros, é a verdadeira, e raramente publicitada, razão da invasão israelita. Goste-se ou não, há que admitir que foi, do ponto de vista da estratégia geopolítica, brilhante.

O que sucedeu aquando da invasão de Israel? O pior, e o pior na altura foi que cada um dos parceiros de coligação achou que podia aproveitar essa “oportunidade” para tomar o poder sozinho após a guerra, vieram à tona todas as anteriores rivalidades. Em Julho de 2008 é constituído o segundo governo de Fouad Siniora, mais marcado por clivagens internas que por qualquer esforço de reconciliação, a 9 de Novembro rescinde a favor de Saad Hariri que, após cinco meses de negociações, forma um novo governo de União Nacional.

Quem ganha e quem perde

Este governo é constituído por 5 ministros independentes afectos ao presidente, 14 ministros afectos à coligação Aliança 14 de Março do primeiro-ministro Hariri e 10 ministros afectos à Aliança 8 de Março, da oposição… a intenção sendo que deste modo o primeiro-ministro não retém a maioria dos votos ao mesmo tempo que a oposição é mantida sem poder de veto (são necessários 11 votos, a oposição detém somente 10) e os ministros independentes, afectos ao presidente da república, ocupam uma posição de charneira.

Lamentavelmente, enquanto se sucedem anualmente as criações de novos governos de União Nacional nos quais a principal preocupação das forças coligadas é tentar obter o maior número de ministérios para os seus partidários de modo a impor a sua vontade aos “aliados”, permanecem por reconstruir a esmagadora maioria das infra-estruturas bombardeadas por Israel em 2006, já longe e aparentemente inalcançáveis se encontra a possibilidade de uma frente unida, de uma Reconciliação Nacional e de uma aliança militar entre os principais exércitos religioso-partidários.

Resumindo: ganhou Israel, que assegurou deste modo a relativa segurança da sua fronteira com o Líbano e estropiou a probabilidade de um Líbano uno política e militarmente; ganhou o Hezbollah pelo seu destacado desempenho na guerra. Quem ficou a perder? O Líbano…

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